terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Boicote aos sapatos.

Todo chão é sagrado.
Se estiver como veio ao mundo então, é o sagrado em forma bruta, ainda mais vital e pulsante. Seja um chão de pedras com água corrente, seja de terra, preparado para o fogo ou expansivo como o ar- sendo os dois últimos mais metafóricos- o lugar em que se pisa é sempre um lugar sagrado, ou ao menos deveria ser. O triste é que hoje em dia estamos cada vez mais distante do chão, muitas das vezes o acimentamos ou colocamos pisos e ainda por cima sapatos. Sob esses moldes da cidade urbana, cada vez mais artificial e distante das coisas mais naturais, nos acostumamos tanto com os produtos manipulados pelo homem que nem o chão conseguimos mais encarar com igualdade e serenidade. Hoje em dia muitos de nós tem nojo, medo, "nervoso". Cada um com suas dificuldades e entendimentos, mas o que me chama a atenção é como temos nos identificados cada vez menos com o natural, e o "minimamente" artificial tem se passado por natural/original. Reflitamos.
Nossa terra faz parte de nós, diz quem somos literalmente, embora muitos de nós não consigam perceber isso por uma visão ainda restrita -aqui não me refiro apenas a terra em que nascemos embora essa tenha um papel fundamental em nós, mas sim aquela a qual carrega nossa origem. Nossa terra é quem nos conhece a ponto de produzir os alimentos mais nutritivos especificamente para cada época do ano, os quais realmente precisamos mediante o clima e características próprias de cada estação. Nossa terra é quem nos pode oferecer o mais puro dos medicamentos até mesmo sem pedirmos, e ainda que usemos apenas medicamentos alopáticos tenha certeza de que foi através do poder e do conhecimento de cura dela que eles puderam ser produzidos -ainda que fiquem extremamente a quem de sua suposta função e versão original. Não importa o que façamos a terra esteve/está sempre ali provendo todo o necessário para que a vida se mantenha corrente. E é essa energia de vida, de renovação, de cura e harmonização que isolamos quando nos acostumamos cada vez mais com os pisos artificiais, que embora na nossa configuração de cidade seja necessário não podem se passar por naturais e nem tomar maior parte da nossa ligação coma terra. Paremos, respiremos fundo.
Catemos um pé de mato, um chão de pedra, de terra, de água da fonte e pisemos sem sapatos, sem isolantes. Usemos apenas o nosso próprio templo, nosso corpo para nos conectarmos com essas matérias geradoras e alimentadoras de vida. Descalçar-se perante o chão pode ser um ato de despir-se em humildade e reverência a sua generosidade e amor, aproveitemos e façamos disso um ritual, não mecanicista, mas que nos leve a pensar na essencialidade das coisas e dos movimentos. Em efeito o descalce nos coloca em contato direto com o que pode ativar nossa própria essência, pura e original, é um processo de re-conhecimento, re-conciliação fundamental para que sobrevivamos na vida urbana sem nos perdermos e deixarmos sermos completamente tomados pelo cimento. Menos sapatos, mais conexão.
Sigamos.

Um comentário:

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