sábado, 9 de outubro de 2010

Cativeiro.



Jogada no chão, não sabia mais o que era vida ou morte.

Não sabia mais se ouvia passos ou se era apenas minha imaginação no auge da minha desconhecida falta de lucidez.Tudo que aconteceu naquele quarto, parecia que acontecia de novo e de novo.As palavras, os rostos, toda uma violência que eu não podia imaginar o quanto podia destruir uma pessoa.Como pode um ser criado para amar e viver, pode odiar tanto e ainda tirar a vida de alguém e se arrepender da própria?

Houve um disparo.Sim, agora me lembro eu estava sozinha amarrada ali naquela cadeira.Primeiro ouvi passos depois correria e um tiro seco no ar.

Um grito.Um pedido.Um comando.

Depois arrombaram a porta da casa e entraram no quarto falando como se me conhecessem. Falando coisas a meu respeito que não faziam sentido, e havia um olhar tão seco e gélido que eu tinha medo de encarar aqueles olhos tomados por uma fonte infindável de ruindade.

Estaria eu pagando por tudo que outras pessoas são?Por toda injustiça, preconceito, egocentrismo?Foi então que no meio do meu sofrimento que eu comecei a perceber o sofrimento do outro, justamente daqueles que me faziam sofrer.De repente, houve um silêncio, seguido por um resmungo completo por desabafos e pouco a pouco iam contando sua vidas e tudo que sofreram até ali, tudo por viverem no grande centro da cidade mas de forma subumana, exatamente aquele lado em que todo o centro vira de costas para não ver, sabe?Tendo uma subvida num mundo paralelo, aquele que é chutado e encaixotado afinal o melhor é longe das nossas vistas e da vista do resto do mundo, certo?Mas por que eu?Eu nunca participei disso, nunca fui a favor, nunca... nada!

Quando eu percebi que a fé não existia mais, eu levantei a cabeça e os encarei, fraca, frágil mas com uma determinação, com sede de justiça..Alguém tinha que pagar por isso..Por tudo!Por mim, por eles!!Foi então que eu chorei, que eu gritei, e rezei como se estivesse sozinha de novo.Pedi por mim e por eles, e ao abrir os olhos tinha uma atenção diferente para mim , me encaravam como um ser estranho não entendendo minha reação.Pois então me pus a desabafar tudo que queria, exatamente como queria, falei sobre minha revolta sobre o que eles passaram e sobre o que eu estava passando.Parecia que minhas palavras soavam como faca, que os cortavam e deixavam em carne viva os deixando tão expostos quanto eu.E quando me dei conta eles estavam de olhos fechados rezando.Foi quando me soltaram e me deixara ali, não entendi se era um pedido de desculpa, um arrependimento ou só tentando diminuir a situação.Saíram do quarto, me encontrei entre quatro paredes que tinham cheiro de amargura, angustia... dor.

Chorei, chorei e chorei. Até ficar vermelha com falta de ar me fazendo desacelerar as lágrimas, conseguindo assim ouvir os choros e palavras de arrependimento misturados com ainda ódio pela sociedade que os deram todas as condições de serem aquilo, e não eles não se orgulhavam disso, e depois do último grito de revolta contra si mesmos ouvi dois tiros, acho que eram os últimos.

Saí e vi os corpos no chão, pude sentir fisicamente minha vida indo junto com a deles.Não se trata mais de culpa, nem de razões , mas sim de vida, de olhar para o outro, se interessar pelo outro.Foi então que decidi me entregar junto.

Acabou para mim, não adianta um corpo sem vida, eu agora realmente entendo quando dizem que é melhor morrer do que perder a vida. A minha se foi, e espero que ao lerem isso sintam o estrago que fazem na vida das pessoas, chega de fazerem vítimas.Será que vai ser assim que vão aprender a fazer o certo,a realmente cuidar das pessoas, a dar condições de serem pessoas melhores e realmente considerá-las como tal?Eu paguei com a vida pelo erro de outros, espero que não seja mais preciso isso acontecer para que haja mudança.Aqui foram duas vítimas do sistema, mas segue outra vítima do caos que esse sistema trás.

3 comentários:

  1. (amor, acho que o texto se repetiu no post :s, tipo, tem dois dele, rs)

    Eu lembrei, não sei se era a intenção, da Ditadura Militar :O rs.
    E sinceramente, seja o que for, doeu até imaginar as cenas terríveis. Porque parar o erro de outrém com a própria vida, e imaginar tudo isso, dói.


    SINTO SUA FALTA, pequena!
    DEMAAAIS.
    Nunca vou deixar de amar você. Apareça ♥

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  2. Muito movimentado, rápido, na flor da pele. Seu conto até me deixou aqui de queixo caido e pensativa. São coisas desses tipo que nos fazem pensar. Bjs :)

    "Eu paguei com a vida pelo erro de outros, espero que não seja mais preciso isso acontecer para que haja mudança" [2]

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  3. Post lido!

    Gostei muito deste post pois ele trata de um assunto que já pensei e repensei: de quem é a culpa de tantos erros? Quem é vítima ou ofensor?

    Agora sei de mais alguém que levanta esse tipo de questão.

    Obrigado pela indicação!

    Tenha um ótimo final de semana!

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