quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Na realidade, não.

'Eu poderia falar daquele momento como se fosse o último.
Poderia chorar e dizer que nada deu certo.
Poderia acabar com qualquer fantasia daquele momento extremamente real e nada hollywoodiano.
Poderia até fazer de uma cena um conto.
Mas nada faria sentido quando eu lembrasse daquele momento.
Era virada de estação mudança o inverno para primavera.
O vento forte soltava a pequenas florezinhas das grandes árvores.
Estávamos lá eu e meu buquê.
Minha filha estava doente eu tinha de visitá-la.
Mas você não sabe o que é ficar 10 anos longe da pessoa mais próxima que você já teve na vida.
E se sabe 'meus sentimentos'.
O principal é que a vida nos afastou de tal forma que esses 10 anos se arrastaram fazendo da relação com minha filha se tornar uma forte lembrança dos tempos mais felizes da minha vida.
Eu tinha apenas: um buquê, saudades enormes, e uma notícia angustiando meu coração.
Ela estava doente, de cama e não queria mais nada nem ninguém.Sair da cama só pela insistência da enfermeira pra ajudar no banho ou nas idas ao banheiro.
Parei na sua porta com aqueles sapatos vermelhos que ela adorava e dizia que eu parecia artista de cinema com eles, e um buquê com suas flores preferidas.
Então abriram a porta.
Era meu genro, uma criança linda e ela.
Minha mão suou, meu coração apertou e o buquê caiu.
Caiu como quem cai na realidade de que nenhum motivo é o bastante para separar mãe e filha.
E sofre muito ao perceber o tempo perdido.
Ela estava radiante e era nítido o quão esforço fazia para estar ali em pé, arrumada e tão contente como se só de saber que cedo ou tarde dia eu viria, pudesse curá-la de todo e qualquer mal.
Bom eu ia levá-la pra cama mas ela só queria o sofazinho da varanda.
Sentamos eu, ela e a criança.Tomamos um chá e depois ela tomou seus remédios.
Batendo aquela brisa suave eu me dei conta de tudo que perdi, e não aguentava mais e abracei tanto aquela criança.Até que perguntei seu nome e ela disse: Maria Flor.
Olhei para minha filha e tive mais do que certeza era minha neta, só minha e única!
Ela tinha um jeito da mãe mas com o nome de avó ela fez meus olhos encherem de lágrimas e eu não podia sair mais dali.Choramos de mais, e percebi que de certa forma era aquela dor que adoecia minha pequena que hoje é mãe e ainda continua sendo minha filhinha.Já a minha menor de todas só queria contar as novidades de uma princesa de 4anos.Parecia que ela sentia minha falta mesmo sem nunca ter me visto.E não tinha ressentimento nenhum quanto a isso.
E eu que só cheguei com um buquê na mão, acabei ficando por um mês.
Com as roupas eu me virei dei meu jeito.
Já o coração eu coloquei na mala de novo só que agora mais leve e tranquilo.
E ao voltar pra casa e aqueles 10 anos virariam horas,no máximo.
Afinal estava de mudança para perto da minha vida, dos meu amores.
Marido eu já não tinha, esse a vida me levou.
Mas os tesouros que agora eu tinha ali, com esses eu não cometeria o mesmo erro.
Sabe o que me dói agora fazendo as caixas das malas para partir, é saber que minha história poderia ser contada de diversas maneiras.
Sendo assim o que me restava a dizer sobre as minhas indagações no início desse desabafo é que: na realidade,não.Eu não podia nada daquilo.Eu só posso pedir perdão pelos anos passados, e me comprometer com meus sentimentos de não cometer o mesmo erro.Agora eu tenho uma vida de novo.Uma não, duas!
E daqueles 31 dias eu guardo o que aprendi, sofri e sorri.Agora virão outras alegrias, outras lições.
E estarei preparadas para elas, ou não, afinal quem disse que crescemos, amadurecemos e mais nada aprendemos?
Já está na hora de partir e aviso logo, aí vou eu família!
A vizinha e avozinha mais coruja está chegando.'

Encontrei hoje essa folha de papel dentro da única caixa que não tinha aberto desde a mudança.Já faz 5anos e só de reler meu coração pulsa forte sabendo que nunca é tarde para tomar o caminho certo.
E mesmo que possa ser para os outros, devemos sempre tentar, pois o que vale é não desistir da nossa verdade.Hoje tenho dois netos, um filha linda, um genro ótimo e amigos e fiz por aqui.E aprendi o que hoje considero a maior lição de todas: o que importa de tudo que se vive é o que se faz da dor que guardas no coração, o resto é consequência.

Palavras de uma senhora-moça que não cansa de viver e aprender.

*Foto do Bloínquês.

Um comentário:

  1. "E mesmo que possa ser para os outros, devemos sempre tentar, pois o que vale é não desistir da nossa verdade."

    muito bom, lindo texto!
    arrasando como sempre babizinha *o*
    Namâste

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