domingo, 3 de julho de 2016

Na estação das folhas

Passou Junho e nada escrevi. No tempo das folhas caírem para retornarem ao seu útero-primeiro e retornarem ao ciclo da vida  e u  n a d a  e s c r e v i. Talvez tenham sido as mudanças no clima, na sina, na rotina. Passam mais algumas 24 horas e envelhecemos um pouco mais, amadurecemos um pouco mais, nos desgastamos um pouco mais. Encontramos a nós mesmos um pouco mais. Ainda sim, permaneço na busca de um "eu" mais essencial, mais despido, mais cru. E no meio do caminho encontro: trabalho. É olhar no fundo dos meus próprios olhos perguntar quem mora aí e ter como resposta: "olha aqui essa oportunidade de trabalho, vai lá". Olha, que não digo trabalho assalariado, com direito  CLT e hora extra. Me refiro as oportunidades diárias e constantes de colocar meu desejo pessoal de lado e fazer algo para o outro, para o mundo, para Deus. Servir. Ao atender aos pequenos chamados, pequenas forças internas parecem se mover sem que eu perceba. Dá um pouco de medo no início por que o desejo em trabalhar é grande, mas a inexperiência pede pra ir com calma e atenção. Passa, então, o tempo das folhas e dos antepassados como as folhas que cumprem seu ciclo vital e se entregam a terra de novo para nos dar ainda mais vida... E então chega 21/06, chega Julho, chega o inverno é aí que percebo quantas folhas caíram aqui dentro sem que fizesse som ou palavra, sem que eu percebesse. Julho nos chama pro centro, após as folhas caírem e servirem de alimento para o útero que os alimentou surgem os galhos secos mostrando que a atenção está nas raízes que trabalham silenciosamente para buscar o melhor da terra e dar as melhores flores e frutos. Mas, antes eu nunca tinha percebido esse efeito do outono e do inverno com tamanha exatidão, e se não fossem os trabalhos, que sempre demandam estudos e vivências, eu não compreenderia essa força. Agora que algumas folhas caíram e os galhos começam a se mostrarem lindos e nus aos céus o trabalho das estações internas começam a formar som e letras. E apesar de ser uma época de silêncio e introspecção resolvem sair e compor esse singelo partilhar, talvez para me fazer companhia nesses dias mais cinzentos. Enquanto não chega a estação das flores e da Luz deixemos as últimas folhas caírem, contemplemos os galhos a secarem e nos alimentemos do melhor. Afinal, os dias estão mais curtos e cinzentos e a noites mais longas e limpas, procure um canto aconchegante e aproveite. É o que estou fazendo.