quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Quem tem medo da Verdade?

Eu olho ao meu redor e tem gente que pensa ser a verdade encarnada. Vejo egos doídos querendo se manifestar de um jeito ou de outro, daí jogam suas "verdades" em cima dos outros que muita das vezes não queriam nem saber, ou até mesmo já sabiam mas enxergam de um outro jeito. Mas, são tantos rostos, tantos sentimentos e pensamentos que circulam e brotam do mais íntimo do nosso e ser e das partes mais expostas também. Junto a esses rostos, são tantas experiências vividas nessa vida e quem, crê,  dirá que em outras vidas também. Com tantos aspectos a conhecer, como posso afirmar "saber a verdade"? Quem sabe "a verdade"? Às vezes essa pergunta é respondida em situações palpáveis e concretas como ver alguém bebendo água e saber que a água foi bebida por tal pessoa. Mas, nem sempre é assim.
Arrisco dizer que a realidade que vivemos é minimamente feita dessas "situações palpáveis", a maior parte dela é feita das situações mais sutis, subjetivas e que infelizmente não participamos de sua criação ao menos não temos essas consciência agora. Já chegamos ao mundo com uma história social, cultural, econômica pré estabelecida, ainda quem é constante criação (que tem parecido mais um "fazer mais do mesmo", mas isso e outra história). O que quero ressaltar é como já chegamos num mundo de histórias vividas e viventes numa realidade paralela ou entrelaçada a nossa.  
O contexto familiar, por exemplo, é algo extremamente difícil de se avaliar. Como posso saber da relação da minha mãe com meu avô, se eu mesma com essa consciência que tenho agora não estava lá desde o início para ver e acompanhar a relação deles? E mesmo, sem poder afirmar, essa relação reflete na minha relação familiar hoje, não somente com meu avô, mas com todo o resto. Pois a memória que se constrói de uma vida, seja individual ou de um grupo, é feita dessas relações. Nossa memória é feita das relações que vivemos, e das que ouvimos terem sido vividas. E em algum momento de nossas vidas equivocadamente colocamos essas memórias como a própria Verdade. E nós não estávamos lá para saber grande parte do que aconteceu e gerou tudo que acontece agora.
O que quero dizer com tudo isso é: Como saber a Verdade de "um fato" se ele tem tantas pessoas e relações envolvidas que não presenciamos? E digo mais, há tanto na história de vida das pessoas mais íntimas nossas que não sabemos, como podemos afirmar algo sobre aqueles que conhecemos a alguns anos? Com quem tínhamos intimidade e confiança frágeis? 
Eu sinceramente me pergunto: que verdade é essa jogada aos quatro ventos sem cuidado consigo nem com o outro? Para mim, a Verdade tem força e poder. Mas, por ser tão singular é tão difícil de ser verdadeiramente acessada e conhecida. O que ouço, vejo, sonho, são fragmentos de histórias, de experiências, de vida. Acredito até que possam conter a Verdade, mas eu não tenho tamanha lucidez para reconhecê-la em sua plenitude, posso apenas ter um contato singular com ela. A verdade da atualidade me parece um tanto quanto frágil e esburacada. Faltam pedaços daquilo que não se sabe. Falta o desconhecido que não se viveu, que não se quis saber. Falta aquilo que simplesmente se ignorou, que não se pôde acessar. E nós não temos capacidade de dar conta de conhecer tudo do outro, de um relação, do que quer que seja. TUDO ainda é demais para nós, ao menos para mim que sou uma reles prisioneira dese corpo perecível. Diante do fato do desconhecido ser parte da verdade atual, arrisco novamente ao dizer que a Verdade é algo para os humildes. A Verdade é para aqueles que reconhecem sua ignorância, seu desconhecimentos de todas as peças do jogo. Até por que se fossemos verdadeiramente conhecedores, não estaríamos por aí "ameaçando outros com verdades", mas quem sabe estaríamos dispostos a trocar aprendizados a partir da Verdade conhecida. 

Com tudo isso, fiquei martelando uma corrente que passou no Facebook que pedia para escrever sobre algum conselho baseado no que aprendi nesse ano de 2016. Se tem uma coisa que eu aprendi foi sobre a Verdade. Aprendi que cada dia é UM dia: específico, frágil e potente ao mesmo tempo. Não duvide, não subestime. E mesmo no nosso atual estado de ignorância sobre a vida, o mundo e quem somos, nós podemos acessar a Verdade. Minha fé, me permite dizer que o que eu realmente aprendi esse ano e deixaria de conselho é: Confie na sua intuição, pois a Verdade nos chega pelo coração, e só diz respeito a nós mesmos. Cada um de nós tem uma Verdade a conhecer, pois cada um tem sua vida e seu caminho a percorrer, embora todos eles nos leve a um mesmo fim longínquo: a Verdade que esquenta nosso coração só diz respeito a nós mesmos.
Confie na sua intuição, mas purifique seus sentidos, harmonize sua mente e seu coração para realmente conhecê-la e saber usá-la. Confie, seja corajoso. A Verdade não é para aqueles que querem macula-la soprando-a ao vento, mas sim para aqueles que saberão usá-la no seu próprio crescimento. 

Eu não tenho medo da Verdade, não mais. Agora sei que Ela vem no tempo certo e da maneira certa e mesmo assim não vem por completo, mas vêm sempre o necessário para se dar o próximo passo. Um dia, depois do outro.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O cabelo dançante

Meu cabelo dançava em seu rosto. 

Enquanto um silêncio apaixonante
e apaixonado nos inundava,
nossos sorrisos não se seguravam, 
nossos olhos não se desgrudavam
e meu cabelo dançava em teu rosto.

Você se desconcentra e bruscamente faz movimento.
“Que houve?”-digo.
"Nada, é que tinha um cabelo seu
dançando no meu rosto.”

Já era poesia antes de ser.

Quebrou o clima, o romance virou cotidiano.
O sorriso, riso.
E o amor virou mais amor.

Tudo por causa de um cabelo dançante,
Que se soltou, talvez, em tamanha liberdade
de querer te amar ainda mais de perto.
Talvez, fosse o calor e essa troca incansável dos fios.
Talvez eu fique careca.

Mas, o cabelo que dança na atmosfera do amor,
vira bailarino do tempo.
O vento, maestro e os corpos, palco.
O enredo é apaixonante, não duvidem.
O cabelo dançante, desgarrado e livre,
tem um espetáculo único, curto e espontâneo
de leveza e descontração.

Sempre bem-vindo na Companhia do Amor.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Precisamos falar sobre fé

             É engraçado como não temos noção do alcance de nossas palavras. Digo isso em quantidade e intensidade. Hoje em dia, vejo que falar sobre sua fé e seu valores mais preciosos é como abrir o mar vermelho praticamente “anti natural”, haja força para dominar o poder da natureza, como fez Moisés. É mais fácil falar “Fora Temer” ou “A culpa é do PT”, mesmo que de baixo da terra nada disso importe. Sobre os valores, não me refiro aqui a moral dos “bons costumes, da família tradicional brasileira”. Eu me refiro àquilo que sustenta tua alma com leveza e alegria. Falo dos valores que te permitem tomar uma decisão e dormir de consciência verdadeiramente tranquila, sem precisar final do ano fazer aquela “caridade” para garantir a vaga no céu.
          Ainda que, claro, erremos e nos decepcionemos com as consequências, são os valores que nos dão a paz de saber que fizemos o melhor e podemos tentar de novo, sempre buscando acertar. Repito aqui que não temos noção do alcance de nossas palavras e para aqueles que acreditam em Deus , ou melhor, tomam consciência da força divina- seja lá qual nome que dêem. Sua palavra, então, tem ainda mais poder e alcance. Aqui não falo de Bíblia meramente, até porque conheço bem pouco dela e algumas coisas ainda não me descem. Mas, fico encantada como a “palavra de Deus” se manifesta através de devotos sinceros, por exemplo, de religiões cristãs e me remetem a verdades dentro do meu coração que tem pouca intimidade com Jesus. E essas verdades tocadas no nosso interior não são a “verdade da supremacia de Cristo”, mas a verdade de que Deus fala a QUALQUER UM e em qualquer cultura, em qualquer língua. Como somos muitos e diferentes, precisamos de muitas maneiras de ver, sentir e conceber Deus.
         O que quero ressaltar aqui é como pessoas evangélicas/católicas impregnadas da força e do amor de Deus, do amor Universal, podem falar aos meus ouvidos pouco conhecedores de seus conhecimentos religiosos e me levar lá pro meu terreiro e pelas experiências que tenho cotidianamente com Deus, com os orixás e com todos os irmãos que encontro pelo caminho. E isso é fascinante, pois mesmo muitos desses devotos estarem acreditando falar de um Deus e de um culto específico, na verdade, quando imbuídos de Deus ou como muitos falam “tomados pelo Espírito Santo”, falam a todos nós. Isso por que não é a religião que fala sempre! Deus tem suas maneiras de chegar até nós e passe sua mensagem! Preciso lembrar que homem não tem mais poder que Deus, só perante nossos olhos e questões mundanas, mas aí vem um “desastre natural” e muda tudo. T U D O. Aonde quero chegar com tudo isso? Quando a Verdade se manifesta ela pode ser entendida como Deus, Olorun, Alah, Jah, Gurudeva, força da natureza e outras infinidades de nomenclaturas. Mas quando Ela se manifesta não tem coração adormecido o bastante que não desperte minimamente. E às vezes pensamos que estamos falando do nosso testemunho e do nosso Deus, quando na verdade estamos falando de uma experiência íntima e pessoal que pode tocar a experiência íntima vivida por cada um de uma forma diferente.
       E com isso não quero dizer que todas as religiões são iguais, longe de mim afirmar tal ingenuidade. Quero atentar para algo que é para além delas e muitas vezes se apresenta apesar delas. Vi um vídeo de uma menina, hoje convertida, aparentemente famosa da internet dando testemunho e falando que o que ela conqusitou na internet, hoje entende que não é para falar de coisas vazias. Mas dizia que a proposta era maior, era de levar a mensagem de que cada um tem algo maior para ser vivido e que não cabe no nosso cotidiano mundano e uma fonte de vida incessável, que para ela se reduz a Jesus. Mas, que eu só conseguia pensar em como Deus é pleno em todas as suas formas e que as pessoas precisam saber disso e parar de se culpar por suas falhas ou se sentirem sujas, por mais que muitas religiões ainda preguem essas doutrinas de controle. Muito menos devemos ter vergonha de nossa crença ou de nossos valores, por mais que a sociedade diga ser antiquado e a ciência diga ser “crendice”.
           Precisamos enfrentar o racismo e a intolerância (sustentados pela ignorância) para fazer valer nossa dedicação e amor ao que nos rege e sustenta. Eu também estava no meu cotidiano aleatório procurando vídeos legais de blogueiras que curto, e apareceu o vídeo dessa menina. Essa menina talvez tenha falado aos seus, mas me tocou também e eu fiquei aqui pensando e sentindo se também não tenha um pouco desse Dharma em meu caminho, o de falar pras pessoas de coisas que preencham, não que nos mantenha no esvaziamento. Só sei que fiquei pensando em quantas pessoas podem ser tocadas e despertadas se perceberem que Deus também habita os terreiros e os barracões da vida. Aonde há corações puros e cheios de amor, acredito, há Deus. Não posso afirmar com convicção o que Ele é, mas sei o que não é. Deus não é um jeito de adorar ou de agir específicos. Só você na sua experiência íntima pode saber como ou o que é Deus. Ele está aí dentro seja você quem for e que crença tenha , por que dEle veio todas as coisas. É a vida dele que corre nas veias do ser humano, dos animais, no caule das plantas, no fogo que queima, no ar que movimenta, na água que lava e na terra que nos alimenta.
            Então, hoje uma menina evangélica cheia de Deus me fez sentir ainda mais plena nas escolhas religiosas e espirituais que fiz e continuo fazendo. Não por que na religião dela não tem o Deus que acredito, mas por que, repito: a Verdade é algo para além das religiões e muita das vezes se manifesta APESAR delas. Nossos valores não são vergonha, não são menores, não são “moda”, não são fora da nossa realidade política/social/cultural. Levamos todos os dias nossas convicções aonde formos, tenhamos cuidado com isso. A atenção é necessária para que um instrumento de liberação não vire de controle e adequação. Mas, se estivermos imbuídos cada vez mais daquilo que nos alimenta e alegra o coração vai ser a fonte desse alimento que você vai levar as pessoas e lugares. Nossos valores não são aquela moral sustentada pela hipocrisia.
        Olhe para dentro de si, questione seu coração e o que verdadeiramente o contempla e o completa, encontre seus valores, busque aqueles que dialogam com eles, se fortaleça neles. Transborde por aí tua alegria de viver sua Verdade. Não há tempo de sermos intolerantes e racistas, o que nos completa é feito de amor. Só amor. Todas as outras coisas nos comerão os olhos e o coração, pois distorcerão a realidade nos afastarão um dos outros.

domingo, 3 de julho de 2016

Na estação das folhas

Passou Junho e nada escrevi. No tempo das folhas caírem para retornarem ao seu útero-primeiro e retornarem ao ciclo da vida  e u  n a d a  e s c r e v i. Talvez tenham sido as mudanças no clima, na sina, na rotina. Passam mais algumas 24 horas e envelhecemos um pouco mais, amadurecemos um pouco mais, nos desgastamos um pouco mais. Encontramos a nós mesmos um pouco mais. Ainda sim, permaneço na busca de um "eu" mais essencial, mais despido, mais cru. E no meio do caminho encontro: trabalho. É olhar no fundo dos meus próprios olhos perguntar quem mora aí e ter como resposta: "olha aqui essa oportunidade de trabalho, vai lá". Olha, que não digo trabalho assalariado, com direito  CLT e hora extra. Me refiro as oportunidades diárias e constantes de colocar meu desejo pessoal de lado e fazer algo para o outro, para o mundo, para Deus. Servir. Ao atender aos pequenos chamados, pequenas forças internas parecem se mover sem que eu perceba. Dá um pouco de medo no início por que o desejo em trabalhar é grande, mas a inexperiência pede pra ir com calma e atenção. Passa, então, o tempo das folhas e dos antepassados como as folhas que cumprem seu ciclo vital e se entregam a terra de novo para nos dar ainda mais vida... E então chega 21/06, chega Julho, chega o inverno é aí que percebo quantas folhas caíram aqui dentro sem que fizesse som ou palavra, sem que eu percebesse. Julho nos chama pro centro, após as folhas caírem e servirem de alimento para o útero que os alimentou surgem os galhos secos mostrando que a atenção está nas raízes que trabalham silenciosamente para buscar o melhor da terra e dar as melhores flores e frutos. Mas, antes eu nunca tinha percebido esse efeito do outono e do inverno com tamanha exatidão, e se não fossem os trabalhos, que sempre demandam estudos e vivências, eu não compreenderia essa força. Agora que algumas folhas caíram e os galhos começam a se mostrarem lindos e nus aos céus o trabalho das estações internas começam a formar som e letras. E apesar de ser uma época de silêncio e introspecção resolvem sair e compor esse singelo partilhar, talvez para me fazer companhia nesses dias mais cinzentos. Enquanto não chega a estação das flores e da Luz deixemos as últimas folhas caírem, contemplemos os galhos a secarem e nos alimentemos do melhor. Afinal, os dias estão mais curtos e cinzentos e a noites mais longas e limpas, procure um canto aconchegante e aproveite. É o que estou fazendo. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Boa nova

Hoje tirei o dia para calar.
Tirei o dia para em silêncio,
me conectar a você
e ao que você tem deixado em mim.

Não foi premeditado, aconteceu.
Amanheceu e eu não quis falar,
quis a quietude externa para velar a interna.
Quis saber como é ficar sem você, agora, que te tenho.

O silêncio foi acolhedor,
parecia abraçar o sentimento que ainda não sei mensurar/qualificar.
Foi um abraço intenso, aconchegante, tinha um calor diferente.
Se fosse um fogo, eu diria que era azul. Havia pureza nele.

Quando dei por mim, em pleno silêncio, o coração falou.

Eu só queria dizer: "sou mais feliz por ter você."
Não disse.
Precisava esperar mais, em silêncio.
Quis saber se era nascente, ou poço
aquele estado mental-emocional em que me encontrava.

Mental sim.
Pois, sem perceber o silêncio-acolhedor me levou a meditar.
Foi quando repentinamente comecei a sentir,
não o desconhecido.
Mas, num contexto diferente.

Agora eu sabia: era nascente.

Por algum toque da vida, me tornei fonte.
E pude ver novamente no infinito do meu ser a vida e o amor brotando.
E assim senti a água percorrer todo meu corpo,
levando emoção aonde eu achava que nem podia sentir
lavando memórias que eu nem lembrava que doíam tanto.

Pra quem é do fogo e dor ar, a água às vezes se torna novidade.
Traz nova idade, novos ares, novos fogos.
E e eu só queria dizer: "sou mais feliz por ter você."
Agora disse.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Do encontro Fogo e Água.

"Não quero amor com guerreiro pra o fogo não me queimar.
Quero amor com marinheiro que anda nas ondas do mar..."

Disse a menina com a espada na mão e os pés na areia, onde o mar batia.
Disse a menina de pés descalços marcados de tanto chão que pisou. Pedra, brasa, barro, água e flor.
Disse a menina da pele morena de tanto Sol que pegou, para tanto céu que se expôs.
Disse a menina entrando no mar pra refrescar o corpo que muito suou.
Disse a guerreira que se quer sabia esconder suas batalhas, as marcas nos pés, nas mãos e na alma. Tampouco podia fazê-lo.
Disse depois de muito andar, queimar e amar.
Disse a amante do fogo.
Disse.
E diria de novo.
A onda que bate forte e traz a espuma a seus pés fica num vai e vem que só lhe acalma pelo frescor que traz. As feridas já não ardem mais. E mesmo só conhecendo as batalhas que travava frente a si era ali frente ao mar que enfrentaria a maior de todas. Era ela,  o mar e o infinito. O mundo infinito. Mas, ela já não tinha medo, pois foram suas batalhas internas que a levaram e a prepararam para aquele momento. De tanto que enfrentou a si mesma, o mundo não a amedrontava mais, apenas o mar lhe era enigma. A fluidez, a sensibilidade ela pouco conhecera. Mas, ali se permitiu chorar. O infinito não era mais desconhecido, era tudo que morava ali dentro dela, só que fora. Era seu íntimo exposto, mas só ela que de tanto caminhar, de tanto ver e viver sabia naquele momento que o mundo todo e todos os seus infernos e paraísos eram ela também. Ela sabia que o fogo que lhe seduzia e queimava era o responsável por tantas batalhas vencidas. O poder de transmutar. Era isso que amava. Era nisso que confiava. Pois, sabia que se o mar e sua imensidão azul lhe afligisse, ela podia mudar de novo e de novo e de novo. Então entrou verdadeiramente no mar. E de tanto tempo afastada de sua parte mais fluida, mais passiva e pacífica foi engolida por ele. Sucumbiu, submergiu. Mas fora o seu velho amante Fogo, como num raio atingindo no centro do seu coração que a fez voltar a si, voltar a vida. E no despertar percebeu que nadar no mar e em si era outra benção de Deus. Fogo e Água não eram opostos, nunca foram. Agora ela sabia.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Do olho azul

Na trama do olho azul
fechei meus olhos para não ver
que o que mais queria estava frente a mim
e eu não deveria ter.

Fez- se chuva, vento e trovão.
Fez-se tempo novo
raio de luz na escuridão.

Os céus sabem de tudo,
nós que não sabemos ver.
Me calo pra ver se Te escuto,
tímida tentativa de não esquecer.

De não esquecer que sou menos o que penso,
e muito mais que imagino.
Mais o que sinto e
mais ainda o instinto.

Não como reativa,
mas como fonte primária
da minha própria essência
em nada arbitrária.

O que somos flui em veia aberta,
que parte e retorna sempre ao coração.
Como a grande bomba da vida,
muito além da nossa limitada razão.

Consciência, eu diria,
para fazer Renascer,
Reconcilar o eu, o nós e quem sabe, ver Deus.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Pe(r)didos

"Me pediram um poema
lhes entreguei uma flor.
Me pediram uma esperança,
lhes entreguei meus sonhos..
Me pediram amor,
Lhes esbocei um sorriso.
Insatisfeitos queriam mais.
Queriam outras coisas,
lhes expus minha alma.

Acho que eles não sabiam o que queriam."
(01/09/2012)

Ainda hoje, acredito que não saibam o que querem...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Ah você...

Que ainda não saiu de mim,
desse lugar que nunca foi seu,
mas nunca foi meu da mesma maneira.

Ah você
que virou tudo do avesso,
me colocando frente ao meu avesso mas bonito.
Quem diria.

Ah você
que me levou para longe,
longe de um estado acomodado
de ser, querer, estar.

Ah você...
Que generosidade a sua,
que sem perceber foi me fortalecendo
pra que eu não tivesse mais medo de partir.

Nossa história é mais bonita agora
que podemos ver e entender melhor os frutos.

À você,
meu carinho mais profundo que o de sempre e
minha gratidão mais sincera.


"Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver"
(Cartola)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Daqui a pouco

Daqui a pouco eu vou pedir a Deus
Pra não deixar o Sol se esquecer de ninguém.

Daqui a pouco eu vou pedir a Mãe,
pra cada amanhecer nascer dentro de nós.

Daqui a pouco abrir a janela eu vou
Deixar o Sol iluminar o meu lugar.

Daqui a pouco eu vou sair,
Pra encontrar o Astro Rei de cara limpa.

Mas, agora eu não vou pedir a ninguém.
Que seja eu essa força por alguém.

Olhar nos olhos de quem por mim passar.
Sentir a dor do outro e a minha própria culpa.

Recuperar o tempo que gastei olhando em volta,
e fingindo que a cor do mundo
não vem de mim.
Quem sabe agora eu consiga ser melhor enfim.

Agora não há tempo pra me distrair
com as coisas que eu não posso decidir.

Deixo pra depois os pedidos aos céus,
por que agora eu também quero ser céu,
aprender a dar mais amor e fé.

"E há tempo para todo propósito debaixo do céu." Eclesiastes 3:1"

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Boicote aos sapatos.

Todo chão é sagrado.
Se estiver como veio ao mundo então, é o sagrado em forma bruta, ainda mais vital e pulsante. Seja um chão de pedras com água corrente, seja de terra, preparado para o fogo ou expansivo como o ar- sendo os dois últimos mais metafóricos- o lugar em que se pisa é sempre um lugar sagrado, ou ao menos deveria ser. O triste é que hoje em dia estamos cada vez mais distante do chão, muitas das vezes o acimentamos ou colocamos pisos e ainda por cima sapatos. Sob esses moldes da cidade urbana, cada vez mais artificial e distante das coisas mais naturais, nos acostumamos tanto com os produtos manipulados pelo homem que nem o chão conseguimos mais encarar com igualdade e serenidade. Hoje em dia muitos de nós tem nojo, medo, "nervoso". Cada um com suas dificuldades e entendimentos, mas o que me chama a atenção é como temos nos identificados cada vez menos com o natural, e o "minimamente" artificial tem se passado por natural/original. Reflitamos.
Nossa terra faz parte de nós, diz quem somos literalmente, embora muitos de nós não consigam perceber isso por uma visão ainda restrita -aqui não me refiro apenas a terra em que nascemos embora essa tenha um papel fundamental em nós, mas sim aquela a qual carrega nossa origem. Nossa terra é quem nos conhece a ponto de produzir os alimentos mais nutritivos especificamente para cada época do ano, os quais realmente precisamos mediante o clima e características próprias de cada estação. Nossa terra é quem nos pode oferecer o mais puro dos medicamentos até mesmo sem pedirmos, e ainda que usemos apenas medicamentos alopáticos tenha certeza de que foi através do poder e do conhecimento de cura dela que eles puderam ser produzidos -ainda que fiquem extremamente a quem de sua suposta função e versão original. Não importa o que façamos a terra esteve/está sempre ali provendo todo o necessário para que a vida se mantenha corrente. E é essa energia de vida, de renovação, de cura e harmonização que isolamos quando nos acostumamos cada vez mais com os pisos artificiais, que embora na nossa configuração de cidade seja necessário não podem se passar por naturais e nem tomar maior parte da nossa ligação coma terra. Paremos, respiremos fundo.
Catemos um pé de mato, um chão de pedra, de terra, de água da fonte e pisemos sem sapatos, sem isolantes. Usemos apenas o nosso próprio templo, nosso corpo para nos conectarmos com essas matérias geradoras e alimentadoras de vida. Descalçar-se perante o chão pode ser um ato de despir-se em humildade e reverência a sua generosidade e amor, aproveitemos e façamos disso um ritual, não mecanicista, mas que nos leve a pensar na essencialidade das coisas e dos movimentos. Em efeito o descalce nos coloca em contato direto com o que pode ativar nossa própria essência, pura e original, é um processo de re-conhecimento, re-conciliação fundamental para que sobrevivamos na vida urbana sem nos perdermos e deixarmos sermos completamente tomados pelo cimento. Menos sapatos, mais conexão.
Sigamos.